O que é certo: ter vários parceiros sexuais ou apenas um? Os índios Tupis-Caraíbas do Brasil central admitem que o chefe de uma tribo espose várias mulheres ao mesmo tempo, contanto que estas sejam irmãs. Em certas regiões da Ásia, a situação é mais ou menos inversa: um grupo de irmãos compartilha a mesma esposa.
Como explicar a existência de tipos de relacionamentos tão diferentes do nosso? Durante algum tempo, acreditava-se que o modelo de família baseado no casamento monogâmico, fosse um estágio final e superior da evolução da humanidade.
Conseqüentemente, a poligamia — casamento de um homem com várias mulheres ou de uma mulher com vários homens — deveria corresponder ao vestígio de um tipo inferior de família, que teria existido há milhares de anos. Falava-se de “casamento em grupo” ou “promiscuidade sexual” para caracterizar esse hipotético estágio pré-histórico.
Depois de um tempo descobriu-se que a família baseada no casamento monogâmico não era privilégio dos “civilizados”. Ela existiu e existe nas mais diversas regiões do mundo. Entretanto, com uma freqüência maior do que qualquer outra forma de organização familiar.
E é comum identificá-la em sociedades “primitivas”. É o caso dos Nhambiquaras, que são índios nômades do Brasil central. Entre eles, os laços que unem marido, mulher e filhos são bastante semelhantes aos que observamos na sociedade “civilizada”.
Diante de “selvagens bem comportados” como esses, tornou-se difícil continuar falando em sobrevivência da família pré-histórica. E era estranho perceber que a nossa concepção de família não era nem uma invenção exclusiva, nem a única forma possível de regular as relações entre os sexos e a procriação.
A predominância do casamento monogâmico explica-se, antes de mais nada, por uma questão de equilíbrio demográfico. A quantidade de homens e mulheres, em qualquer população humana, tende a ser aproximadamente a mesma, a menos que condições excepcionais alterem essa proporção.
A poligamia também pode aparecer em sociedades onde um número restrito de indivíduos acumula poder e prestígio suficientes para “monopolizar” as mulheres mais jovens e mais desejáveis. É significativo que, em muitos grupos “primitivos", a poligamia seja privilégio exclusivo dos chefes.
É interessante o exemplo dos Naires, grupo que habita a costa do Malabar, na Índia. Tempos atrás, a guerra era a principal atividade dos homens. Isso não lhes permitia constituir família. O casamento era uma cerimônia de valor simbólico, que não criava nenhum laço permanente entre um homem e uma mulher. A única unidade de parentesco estável era a constituída por uma mulher, seus irmãos e seus filhos.
A família e as relações sexuais se transformaram muito no mundo. Atualmente é comum encontrarmos famílias constituídas de diversas maneiras diferentes: com ausência de mãe ou pai, filhos sendo criados por parentes, etc. Também é comum encontrarmos diversas opções sexuais. Algumas pessoas preferem ter diversos parceiros sexuais. Outras preferem se envolver com apenas uma pessoa.
O que é certo e o que é errado? Não existe resposta para essa pergunta. As relações familiares e sexuais “exóticas” nos mostram o quanto está presente a diversidade de comportamentos e atitudes. O importante é a pessoa se sentir bem consigo mesma e praticar um sexo saudável.
Jonatas Dorneles
Anthropologist |