Assumindo o papel de amante, marido, ou mesmo pai e amigo, o homem
adota um comportamento social e sexual. Ele vai depender dos padrões
culturais adotados pela sociedade em que vive. O machismo é um tipo de
modelo de comportamento masculino. A partir dele se estabelecem limites e caminhos
que o homem deve seguir para "cumprir seu papel" de "verdadeiro
macho".
Já pequeno, o menino sabe que ser homem significa não
chorar, ser "durão", agressivo ou protetor das meninas. Também
aprende que mais tarde elas deverão ser submissas, passivas e, de preferência,
virgens.
A divisão do trabalho entre homem e mulher, na tradição
ocidental, sempre reservou para ele as funções mais ativas: o
trabalho fora do lar, a proteção da família e dos bens
materiais. Para a mulher eram atribuídas atividades passivas e sedentárias,
ligadas à manutenção da casa e aos cuidados com os filhos.
Em função disso surgiu um padrão de comportamento
masculino caracterizado pelo culto à virilidade. Qualidade entendida
não apenas como potência sexual, mas também como força
para lutar e capacidade de defender o que é seu. A mulher, não
devendo apresentar essas características, passou a ser vista como uma
das propriedades do homem.
Segundo alguns "machões" mais convictos, a superioridade
do sexo masculino estaria fundamentada em um fato natural: a força de
seus músculos. Numa civilização tecnológica, essa
idéia perde completamente o seu sentido (se é que em alguma época
ela teve sentido).
Nas sociedades em que o machismo é intenso a mulher é
prejudicada. Isso impede o desenvolvimento livre e autônomo das potencialidades
femininas. Até 1962, no Brasil, a mulher casada tinha, juridicamente,
um status igual ao das pessoas consideradas irresponsáveis. Os dois papéis
que a maioria das mulheres exerce (mãe e esposa) não existem em
função delas, mas dos filhos e do marido.
Os mesmo padrões de comportamento que caracterizam o machismo
estabelecem o "complexo de virgindade". Em algumas sociedades é
combatido o sexo antes do casamento, principalmente no caso das mulheres. Já
para ele, tanto as relações pré-nupciais como o adultério
são socialmente aceitos e até mesmo valorizados. Espera-se que,
desde a puberdade, o jovem menino mostre interesse e se dedique às atividades
sexuais, que contam como atributos da masculinidade.
Nessas sociedades tradicionais, a opinião pública
divide as mulheres em dois grupos: aquelas que se mantém virgens até
o casamento e as que "não conseguem resistir". As que transam
antes do casamento são criticadas pela sociedade. Por outro lado, a dominação
na conquista amorosa, característica das sociedades machistas, supõe
contraditoriamente que as mulheres "não resistam". Muitos homens
utilizam a "cantada" como meio de fazer uma triagem, separando as
"puras" das "pecadoras".
A ambigüidade dos critérios morais adotados pelos
"verdadeiros machos" é realmente notável. Muitos deles
estabelecem uma distinção muito clara entre as "suas"
mulheres (mãe, irmã, esposa, filhas) e as dos "outros".
As primeira são (ou deveriam ser) o modelo da virtude e da fidelidade
casta. As outras (as mulheres em geral) são, pelo menos potencialmente,
seduzíveis e disponíveis. Existe um ditado popular e muito machista
que diz: "não existe mulher fiel, o que existe é mulher mal
cantada". É lamentável que em certas partes do mundo ainda
se ouça isso.
Jonatas Dornelles
Antropólogo
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