Já se argumentou que uma sociedade que restringe a expressão sexual dos seus membros, canaliza essa energia sexual para outras válvulas de escape, que acabam beneficiando economicamente a sociedade. Argumentou-se também que, se a sociedade estabelece restrições ao comportamento sexual, o sexo acaba se transformando num prazer maior, como resultado da oposição que deve ser vencida. Será tudo isso correto?
Nenhum desses argumentos é correto. Caso fossem, isso implicaria uma utilização errada e neurótica do sexo pela sociedade. Não existe qualquer evidência que demonstre que uma vida sexual feliz possa enfraquecer uma sociedade.
E também, não existe nenhuma indicação de que membros de sociedades sexualmente mais esclarecidas ou tecnológicas, sintam menos prazer no relacionamento sexual. Na verdade, as evidências indicam exatamente o contrário, uma vez que membros de sociedades sexualmente mais livres encontram menos dificuldades sexuais.
Entretanto, as pessoas deveriam ser esclarecidas sobre comportamentos explícitos e sedutores, assim como da sexualidade “anormal”. Uma ênfase exagerada nos assuntos sexuais — seja ela feita por estimulação ou por restrições — deveria ser eliminada e substituída por opiniões mais equilibradas a respeito da importância do sexo.
Apesar de esse ponto ser passível de muitas discussões, em um mundo ideal, a finalidade deveria ser a de educar as crianças para as suas tarefas adultas, de amar e de fazer amor de uma maneira natural, livre de quaisquer embaraços, vergonhas ou inibições.
Experiências sexuais na adolescência deveriam ser aceitas, mas os participantes dessas experiências deveriam ser conscientizados de todos os possíveis perigos e de suas finalidades. Ou seja, que essas experiências são uma maneira de se aprender coisas não apenas a respeito de sexo, mas também a respeito do sexo oposto e dos relacionamentos com ele.
A masturbação deveria ser aceita como algo normal e, talvez, até mesmo encorajada até certo ponto, uma vez que a sua proibição, além de causar problemas de ordem psicológica, pode levar a relações sexuais antes da maturidade como uma forma de escapar do “pecado” ou da “sujeira” da masturbação. O envolvimento dos pais na sexualidade infantil e adolescente provavelmente deveria ser mantido num nível mínimo, sendo que os pais deveriam evitar toda e qualquer provocação sexual.
Os elementos anti-sexuais na sociedade devem ser evitados para impedir que todos sejam reduzidos a um nível sexualmente infantil — isso geralmente acontece quando se restringe o material sexual, erótico e pornográfico, sob a alegação de que é vulgar. Exatamente como no mundo antigo, o corpo humano e os aparelhos genitais deveriam ser razoavelmente expostos e aceitos como algo normal e corriqueiro.
Os homens e as mulheres deveriam ser uma fonte de alegria e de prazer uns para os outros. Qualquer coisa que diminuísse isso é hostil em relação ao relacionamento masculino e feminino. Uma oposição aos assuntos sexuais prejudica a própria sociedade, já que a felicidade de seus membros está ligada à prática sexual sadia. É possível que as sociedades que pregam a repressão sexual também estejam diminuindo a capacidade que as pessoas têm de amar e de fazer amor e, conseqüentemente, tornando-as mais inclinadas à agressão.
Jonatas Dornelles
Antropólogo |