Até hoje, o amor dos ocidentais se manifesta na busca do
ideal, do perfeito. Quanto mais fora do alcance, mais precioso. Por buscar o
inacessível, é um sentimento que implica em dor, bastante relacionado
com as manifestações religiosas. Ao descrever sua procura de Deus,
os místicos usam uma linguagem muito parecida com a dos amantes. Estes,
por sua vez, parecem viver em "estado de graça".
Tal como é concebido - como uma procura de um ideal inacessível
- , o amor dos românticos pode levar a uma forma de idealização
de si mesmo. Na realidade a pessoa apaixonada ama a si própria na figura
da pessoa amada. Em seu êxtase, não a vê como realmente é,
com suas fraquezas e vulgaridades, mas apenas aquilo que gostaria de encontrar
em si mesmo. A eventual descoberta de uma falha sem maior importância
já é motivo para uma desilusão irremediável.
A definição das formas de idealização
e expressão do amor depende dos conceitos de masculinidade e feminilidade
que a sociedade segue. Em diversas sociedades, a aspiração do
homem tem sido mostrar-se "durão", agressivo, corajoso. "Homem
não chora" ainda é um lema da grande maioria. Com isso, a
ternura vira tabu para ele, e seus sentimentos não podem ser expressos
com delicadeza.
A mulher, por seu lado, é frágil, dependente, espera
atenções que seu parceiro não é capaz de lhe proporcionar.
Esses padrões são transmitidos às crianças, que
os adotam como a imagem de amor a ser perseguida. Se, ao crescer, o indivíduo
permanecer preso às imagens idealizadas da infância e não
conseguir ajustar essas expectativas de comportamento (às vezes contraditórias),
poderá ter dificuldades nas suas relações amorosas: torna-se
excessivamente dominador ou dependente.
Mesmo nas sociedades ocidentais modernas, em que idealmente o
amor romântico deve se realizar naturalmente através do casamento,
a relação entre as duas coisas não é tão
simples quanto se costuma admitir. Em primeiro lugar, o amor romântico
é uma experiência característica, embora não exclusiva,
da adolescência. Para os adolescentes, a primeira experiência amorosa
representa a passagem para uma nova posição social - a de adulto.
Isso porque a descoberta do amor é uma aventura que tende a fugir do
controle da família do jovem, representando sua afirmação
como ser livre e independente.
Talvez o exemplo mais conhecido dessa situação seja
a tragédia de Romeu e Julieta. Os amantes de Verona vivem sua paixão
à margem dos conflitos que separam suas famílias e mesmo contra
as restrições impostas por elas. Nesse sentido, afirmam sua autonomia
em relação ao controle dos adultos. Ao mesmo tempo definem-se
a si mesmos como pessoas adultas. Mas o amor entre os dois jovens é incompatível
com a idéia do casamento, que naquela época, como em Samoa (ver
"Amor e sexo I"), também dependia de uma "transação"
entre as famílias do par.
O fim trágico da história dos dois amantes mostra
que a sociedade pode às vezes propor ideais incompatíveis aos
seus membros. A valorização do amor romântico nem sempre
é capaz de se harmonizar com a instituição do casamento.
Nasce nesse conflito uma série infindável de desajustes, de que
os romances populares, novelas brasileiras e mexicanas são exemplos.
Porém, se você está pensando em amar, vá em frente!
O mais cético dos mortais não resistirá em se envolver
em uma tórrida paixão, mesmo sabendo que há uma probabilidade
muito grande de "sofrer por amor".
Jonatas Dornelles |