O amor do tipo romântico é um fenômeno relativamente novo na história
da sexualidade humana. Surgiu pela primeira vez na Europa Medieval, como parte
integrante do conceito de cavalheirismo. O perfeito cavalheiro medieval adorava
uma dama de alta linhagem e estava disposto a arriscar a vida a fim de agrada-la.
Esse tipo de amor estava desligado da idéia de casamento. Na vida prática, as
mulheres eram consideradas como bens materiais, inicialmente dos pais e, em
seguida, do marido (estavam inteiramente sujeitas à vontade deles, inclusive
por lei). Os casamentos eram tratados pelas famílias.
Grande parte das musas dos cavalheiros medievais eram casadas.
Muitas vezes eles nem chegavam a conversar pessoalmente. O amor era demonstrado
através de poemas e canções cujos temas revelavam um ideal amoroso combinado
com o culto à Virgem Maria. Na mulher buscava-se a mesma perfeição imaculada.
Na relação buscava-se a mesma exaltação do espírito. Ocupado em fazer-lhe poemas,
o cavalheiro não esperava da amada nenhuma recompensa ou qualquer expressão
de afeto em troca de suas demonstrações amorosas. A função dele era idolatrar,
chorar, sofrer, até mesmo morrer de tanto amor.
Por outro lado, hoje em dia há pessoas incapazes de amar por se
preservarem de grandes emoções. Para não serem "atingidas", criam uma espécie
de parede entre elas e o mundo exterior. Muitas vezes se tornam narcisistas,
extremamente solitárias ou auto-suficientes. Nesse caso, acabam se apaixonando
mais tarde, ao se tornarem maduras (podendo confiar nas próprias emoções). Quando
se está amando, todos os sentimentos parecem mais aguçados. O apaixonado vê
e sente tudo que o cerca com maior intensidade, o amado é maravilhoso e único,
o mundo inteiro está repleto de visões, ruídos, sensações e perfumes agradáveis.
No entanto, como o amor do tipo romântico está muito próximo da
idolatria, é comum que a pessoa faça uma imagem "dourada" demais da pessoa amada.
Na primeira oportunidade sente-se enganada ao descobrir que seu ídolo tem defeitos.
Mas, quando o amante é capaz de ver não só as qualidades, mas também as imperfeições
do outro (reconhecendo-as e aceitando-as como faz com as próprias), isso significa
que está superando a fase puramente romântica para deixar que o amor se transforme
em algo mais duradouro. Ou seja, um relacionamento com base na compreensão mútua
e troca de sentimentos e experiências.
Porém, certos casais apaixonados temem que seu amor profundo se
transforme em mera afeição. Agarram-se febrilmente ao romantismo, tentando eternizar
momentos mágicos de paixão. Mas, para quem está no início de um amor, ou se
apaixonando pela primeira vez, é difícil acreditar que aquela experiência fascinante
seja uma espécie de amor e não "A" fórmula mágica e perene do "Grande Amor".
Quem espera manter para sempre o estado de êxtase no amor acaba
vendo-se obrigado a criar uma série de circunstâncias que, com o passar do tempo
e o convívio, vão se tornando artificiais. A paixão transforma-se em tensão
emocional, física e psíquica insuportáveis. O casal passa a "provocar" freqüentes
separações, consciente ou inconscientemente, a fim de conhecer mais uma vez
as emoções fortes da reconciliação.
Na sua desenfreada busca de "felicidade", o amante confunde-se.
Ele não se encontra preparado para construir, lentamente, um tipo de relacionamento
em que haja a plena afirmação de cada um, com suas qualidades e defeitos. Após
algum tempo, através das próprias experiências, felizes ou infelizes, alguns
conseguem compreender o amor. O êxtase e a paixão foram apenas uma espécie de
semente na qual brotaria o relacionamento futuro. Enfim, era o início de um
processo que iria
Jonatas Dornelles |