O indivíduo com "desvios" no comportamento sexual nunca usufrui
de uma relação sexual "normal". A sociedade julga que,
se o indivíduo prefere ou tem necessidades eróticas especiais,
pode haver algo errado. E quando uma pessoa, por qualquer razão, é
incapaz de usufruir do ato sexual "normal", como devemos encarar essa
situação?
Recentemente, o estudo da natureza e motivação dos "desvios"
recebeu grande impulso. Ainda assim, resta muito para ser estudado. O que faz
com que um indivíduo seja fetichista ou travesti? Evidentemente existem
muitos fatores que levam um homem ou uma mulher a adotar uma atitude sexual
incomum.
De maneira geral, as crianças de nossa cultura sofrem de sentimento
de culpa com relação à sexualidade em desenvolvimento.
Devido ao forte tabu cultural do incesto, essa sexualidade nascente precisa
ser canalizada para fora da família, acabando por se tornar um dos sinais
da crescente independência do filho.
De modo geral, a maioria dos casos de "desvios" sexuais registrados
são de homens. A ansiedade sexual feminina muitas vezes se manifesta
através da frigidez - que é uma exteriorização muito
menos chocante socialmente.
Além disso, não causa muita estranheza o fato de duas mulheres
andarem abraçadas. O mesmo acontece com a maneira de vestir: ela pode
usar roupas masculinizadas sem que ninguém a julgue uma homossexual.
Porém, podemos ver os "desvios" sexuais não como doenças,
mas sim como comportamentos peculiares. O medo, a ironia, ou o falso moralismo
de muitas pessoas diante de inusitados impulsos eróticos, são
quase sempre produtos da ignorância.
Práticas sexuais corriqueiras e inocentes, como a masturbação,
são ainda hoje erroneamente consideradas causadoras de perturbações
mentais e desvios de conduta. Muitas das chamadas perversões ocorrem
nas fantasias e sonhos de pessoas "normais".
Cabelos femininos e roupas íntimas de mulher são estímulos
eróticos para a maioria dos homens. Isso não quer dizer que sofram
de desvios sexuais. Para isso, seria necessário que esses estímulos
fossem as principais ou únicas fontes de desejo.
Nossa sociedade estabelece que a vida sexual normal de um indivíduo
se baseie no relacionamento duradouro com um adulto do sexo oposto. Por isso,
o problema do "desviante" não reside tanto em um distúrbio
sexual, mas sim na necessidade de adaptar-se a um meio que o condena.
Ele é incapaz de estabelecer um relacionamento socialmente aceito e
considerado normal. Conseqüentemente, está sujeito a uma vida de
solidão e a sentimentos de ansiedade e culpa.
Os "distúrbios" sexuais são, muitas vezes, resultados
de traumas na trajetória social do indivíduo. Distorções
nas relações familiares ou experiências traumáticas
podem perturbar a evolução emocional do jovem. Como resultado,
ele apresentará reações inadequadas para sua idade, especialmente
no tocante a atitudes e sentimentos relacionados ao sexo.
Excluindo os estupradores e os pedófilos, o resto dos impulsos eróticos
não representam em si um perigo à sociedade. Geralmente esses
impulsos também não representam nenhum mal ao indivíduo.
É claro que o problema surge quando a vida (considerando as relações
sociais, o trabalho, estudo, família, etc.) começa a ser afetada.
Mas nesse caso, a culpa não é do impulso especificamente. Qualquer
outro comportamento (mania de limpeza, por exemplo), quando se torna compulsivo,
também atrapalha a vida do indivíduo.
Jonatas Dornelles
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